Até 1962, ano em que faleceu minha bisavó Belita, eu passava muitas tardes na casa dela na Avenida Angélica, 1987.
Vovó Belita era uma mulher alta, muito bonita, com uma pele maravilhosa e cabelos de um branco imaculado. Ela tinha 92 anos quando morreu. Vivia na casa ao lado Da. Nenê que era um ano mais moça que ela. Visitavam-se sempre nos aniversários, as filhas eram amigas, em suma, boas vizinhas. Para não ficar mais velha que Da. Nenê, vovó dizia ter um ano a menos. Muito faceira, sempre muito bem vestida, usando salto alto até morrer, vovó usava sempre os cabelos presos num coque, vestidos de cor escura, com rendas (feitas à mão por ela mesma) no decote do vestido. Quando aos 90 anos quebrou a cabeça da tíbia e não resistiu à tração, ficou com uma perna uns dois centímetros mais curta que a outra. Ela não teve dúvida. Foi ao sapateiro e mandou aumentar o salto dos sapatos.
Viviam com ela duas de suas quatro filhas: tia Candóca (Candinha, Tatá), a mais velha e tia Cy (Lucy, Lúcia) a caçula que era viúva com o filho e uma empregada antiga, a Clarice.
A Clarice morava no sótão da casa. Usava sempre uns chinelos, que arrastava para andar. Vovó Belita achava que os óculos da Clarice eram os melhores para ler ou ver algum ponto mais miúdo na tapeçaria que estava bordando. A todo momento mandava chamar a Clarice para que trouxesse os óculos para ela usar. E lá vinha a Clarice, chan, chan, chan, arrastandos os chinelos, do sótão até a sala, com os óculos.
Clarice era filha de uma escrava com um senhor alemão. Era mulata clara, com olhos azuis. Ela tinha uma irmã, a Eliza, que morava em Porto Alegre e vinha visitá-la todo ano. A Eliza era negra. Muitos anos mais tarde, o Juca (meu irmão) viajando de navio, conheceu um casal gaúcho. Eram da família com quem a Eliza trabalhava e lembravam bem dos preparativos e excitamento que precediam as viagens anuais.
Além da Clarice, trabalhava na casa um casal, a Lázara e o Joaquim. A Lázara tinha sido cozinheira na minha casa, mesmo depois de casada com o Joaquim. O Joaquim tinha sido menino de cocheira de um outro bisavô meu que era coronel da Guarda Nacional.
Os três, a Clarice, a Lázara e o Joaquim morreram trabalhando para a família. A Clarice está enterrada no túmulo da família no Cemiterio da Consolação.
Foi com vovó Belita, as tias (ou meninas como se chamavam até morrerem, todas com mais de 90 anos) e minha avó Aída que aprendi a jogar buraco. Eram partidas muito sérias, com todos muito atentos às jogadas da vovó Belita que gostava de dar a sua roubadinha.
Os almoços na casa da vovó Belita eram impressionantes. Sentávamos em uma longa mesa coberta por uma toalha que descia até o chão. Na cabeceira sentava vovô Ataliba, um homem de um metro e meio, exalando autoridade, com um guardanapo que daria para cobrir uma mesa de jogo, amarrado no pescoço. Ao redor da mesa a família (umas 30 pessoas) por ordem de idade, com nós crianças na cabeceira oposta à do vovô. Todo almoço se desdobrava ao redor do pater famillia. A mulher e as quatro filhas concorrendo para satisfazer o seu menor desejo, que era transmitido por olhares. Ao lado do patriarca, sempre, uma farinheira, um saleiro e outros objetos mais misteriosos. Começava o almoço com uma entrada seguida, sempre por uma carne, um peixa e uma ave, cada prato com os seus acompanhamentos. Vovô antes de comer, invariavelmente, colocava sal na comida. Toda refeição vinha acompanhada de arroz e feijão, este último preto, que era o preferido dos gaúchos (Meus bisavos e três das filhas, entre elas minha avó eram nascidos no Rio Grande do Sul, a caçula, tia Cy havia nascido em São Paulo e se considerava acima da gauchada), sobre o qual vovô Ataliba polvilhava a farinha. Para terminar vários doces, todos feitos em casa e frutas. Era uma empreitada que durava horas. Mas mesmo assim, nós os bisnetos não ousávamos levantar ou fazer qualquer barulho até o fim da refeição.