
Eu aprendi a dançar com minhas primas. Eu tinha várias primas do lado de minha mãe. Eram as filhas do Dico (irmão de mamãe), Maria Helena e Bebel. As filhas de tia Sarah (sobrinhas netas de vovó Aida), Norminha e Cecília. E a Stellinha, filha do irmão mais velho de mamãe (tio Sylvio), esta sete anos mais velha e, portanto, admirada de longe. Do lado meu pai éramos 5 primos homens.
Algumas tardes de sábado eu ia com a Maria Helena até a casa da Tia Norma, aonde moravam Norminha e Cecília, e lá via minhas três primas dançando com os amigos e amigas delas. Eu ficava admirando, aprendendo e esperando que um dia pudesse dançar também.
Vários fins-de-semana eu passei no sítio de tia Maria Helena (tia da Maria Helena e da Bel), mãe de 5 filhos, dos quais a mais velha Yolandinha tinha a mesma idade que eu. Era no Morumbi, na avenida que hoje chamam de Flávio Américo Maurano. Isso foi antes do estádio do Morumbi, antes das favelas, antes do Einstein. Só existiam poucas casas. A casa da fazenda, lógico era uma delas. O Conde Matarazzo estava construindo um prédio enorme, onde pretendia fazer uma faculdade mas que, mais tarde, foi comprado pelo governo estadual para abrigar o Palácio do Morumbi.
Pois é, lá ficávamos nós dançando ao som de Ray Conniff, cha-cha-cha, e de um ritmo novo, o rock-'n-roll.
Hoje não dá para explicar o que foi o filme "O Balanço das Horas". Eu assisti no Cine Ritz Consolação, que ficava na esquina da Rua da Consolação (notem bem o rua, pois ainda não a haviam alargado) e da Avenida Paulista. Eu fui logo quando começou com a Maria Helena, apesar dos padres do Colégio São Luiz terem proibido seus alunos terminantemente de assistir essa criação do demônio. As platéias dançavam e algumas vezes quebravam o cinema. Fui e adorei. Gosto até hoje de rock.
Todos os fins-de-semana as meninas davam festinhas de aniversário, nas quais se dançava. Era um acontecimento importante. Os meninos de terno, usando sapatos pretos, pois sapato marrom só se podia usar de dia. O Gastãozinho Vidigal, quando a filha dava festa, ficava na porta e se alguém tentava entrar de sapato marrom ele fazia voltar para casa.
Não que eu tenha sido convidado para muitas festas.
Eu era amigo do Tuti, que tinha uma filosofia interessante. Convite para festa não era só para ele. Ele considerava que os amigos também deveriam ir. Eu fui em várias festas de penetra com ele. Nessa época, eu não achava "cool" usar óculos, mas precisava deles. Em festa então, nem pensar. Certa vez, o Tuti me levou a uma festa em casa na rua Bolivia se não me engano. Lá chegando fiquei conversando meio ressabiado pois entrar de penetra era algo ousado e o oferecido poderia ser convidado a se retirar. Depois de um par de horas, uma senhora chegou por trás de mim e falou: quer um salgadinho Adolphinho. Fiquei com a cara no chão. A festa era da Heleninha Gordo, que além de prima havia sido minha colega no Ofélia Fonseca. E a senhora era a Carolina Gordo, prima querida de papai que era a dona da casa. A gaffe foi completa. Dei uns cinco minutos e sai correndo. Nunca mais repeti a façanha.
A primeira festa legal (gíria do meu tempo) foi na casa de um amigo do Tuti para a qual, finalmente, eu fui convidado. Era na casa do Alex, amigo do Tuti. Lá eu conheci a turma com que eu iria sair, viajar, etc. por toda minha adolescência, até começar a namorar a sério. Mas isso já é outra história.
Na festa do Alex, pela primeira vez eu dancei pra valer, nessa época estava surgindo o twist, que eu sabia dançar bem. Lá pelas tantas, todo mundo tirou o sapato para dançar melhor. Eu fui o primeiro. Na hora de ir embora, quando eu fui por o sapato, notei que em um dos pés haviam quebrado um ovo. Fiquei pra morrer com a gozação que iria sofrer. Mas não dei o braço a torcer, sai andando como se nada houvesse, como se não tivesse percebido nada. Foi uma pena, pois estragou o prazer que eu tinha sentido e sai de lá triste, mais triste do que saia das festas do penetra.
Minha prima Bebel, tinha uns dois ou três anos menos do que eu. E ela começou a namorar os meus amigos e eu a tentar namorar as colegas dela do Des Oiseaux. Conheci nessa época alguns dos que seriam os melhores amigos, como o Carlinhos, o Edu, o Tonico e mais tarde o Carli.
Dancei muito quando eu era adolescente e gostava muito. Dançava nos navios em que eu viajei para a Europa e para a Argentina. Em 1962 fui para Buenos Aires na mesma viagem do Eugenio C que outra colega de Ofélia, a Maria Pia, que estava com a irmã menor, a Silvia e a mãe.
Eu sempre gostei de uma boatezinha. Fui muito ao Djalma com o Sylvinho (meu primo) e fui com a Eugenia e a Anna Paola na inauguração do Ton Ton Macute, que abriu no lugar do Djalma.
Mas quando me casei a primeira vez, não sei se porque a Margarida era sete anos mais moça do que eu, parei de dançar. Ela nunca aprendou a dançar junto. Ela era da geração pós-hullygully.
Só dançávamos discoteca (agh) no Hipopotamus e mais tarde no Regine's.
O tempo passou, me casei de novo. Comecei a arrastar a asa para Clarissa em um aniversário, no qual dançamos. Mas praticamente não dançamos mais. Ela é 10 anos mais moça do que eu.
Não sei se as pessoas da minha geração ainda dançam. Casando com mulheres mais moças, comecei a andar com gente mais moça do que eu. Não muito mas o suficiente para que não soubessem ou não gostassem de dançar.
Não fizeram Madame Poças Leitão. Que pena.