3/23/2008

Memórias 7 - Ainda na casa da vovó Belita


Era na cozinha da casa da vovó Belita que eu ficava sabendo das histórias dos vizinhos, quem eram, o que faziam, como tratavam os empregados, enfim uma visão a partir dos empregados. A Lázara, cozinheira, ficava na porta da cozinha com um pé na parede, fumando o seu pito, pitando como se dizia e, com sua maneira mansa e voz suave ia me pondo a par do que acontecia. Ela morava num dos quartos em cima da garagem.

Essa garagem havia sido uma cocheira quando a casa foi construída. Eram duas baias transformadas em garagem. Numa ficava um Chevrolet 1952, azul, que era guiado pelo Joaquim marido da Lázara.

O Joaquim dirigia bem, mas muito devagar. Normalmente vovó ia no banco de trás com tia Candóca e a tia Cy ia na frente com o Joaquim. O Joaquim não perdia as radio-novelas da rádio São Paulo. Ela ligava o rádio do carro bem baixinho, aproveitando a surdez das passageiras. Quando eu saia com eles, era eu que sentava na frente com o Joaquim. Como eu já contei o Joaquim dirigia muito devagar e ai dele se fosse um pouquinho mais depressa aproveitando a descida da Rebouças. Tia Candóca ficava apavorada e começava a dizer: "...vai mais devagar Joaquim, seu burro, para que tanta pressa?".

Tia Candóca era muito boa com os empregados mas era da velha escola, do tempo da escravidão (ela nasceu dois anos depois da Lei Áurea)e não media as palavras. Eu que pertencia a duas gerações abaixo da dela me sentia muito mal com os destemperos, mas como criança não podia dizer nada.

O Joaquim, por alguma razão que nunca entendi, tinha certeza que eu ouvia todas as novelas também e comentava comigo detalhes delas, pedindo a minha opinião sobre algum capítulo, ao que eu disfarçava e mudava de assunto.

Sair de carro com eles era muito divertido pois tudo podia acontecer e sempre de um modo inesperado. Me lembro uma vez que o Joaquim parou o carro na avenida Rebouças, bem em frente do Hospital das Clínicas, encostado à ilha central, abriu a porta do carro, pos as duas pernas para fora e ali mesmo, sem o menor constrangimento, abriu a braguilha, tirou o membro para fora e urinou na rua, com todos nós no carro. As três mulheres, duras, olhando para frente e fingindo não ter notado. E talvez não tenham mesmo. O mais dificil para mim era ficar sem dar pelo menos uma gargalhada.

Nos fundos da casa da Angélica, além das garagens com os quartos em cima, tinha também um galinheiro, onde mantinham várias galinhas e um galo. As galinhas eram poedeiras mas, quando uma ficava velha, a Clarice ou a Lázara pegava a galinha condenada pelo pescoço e, com uma faca, cortava-lhe a garganta. E a galinha mesmo com pescoço cortado, ainda dava um passos, antes de cair morta. Era um estardalhaço imenso e, lógico, eu corria para assistir.

Certa vez a Clarice, entrando no galinheiro para pegar alguns ovos, foi atacada pelo galo e teve problema nas pernas que infeccionaram por causa das varizes que ela tinha.
Para subir até o sotão e descer demorava o dobro, como se fosse possível, e era.

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