3/14/2008

O teatro e eu


Sempre gostei muito de teatro. Não sei se o meu amor começou numa peça de fim-de-ano que o Ofélia Fonseca montou, quando eu estava começando a minha carreira escolar. Não me lembro em qual dos três jardins-da-infância que eu cursei. Eu sempre fui muito metido e comecei tudo uns três anos antes da hora. Comecei a ler com três anos. Mas deixa eu voltar ao teatro.
Nesta montagem de fim-de-ano citada eu me vesti de ratinho, com cauda, orelhas e tudo. Eu e uma criançada do Ofélia. O segundo contacto com o teatro foi, como todo mundo da minha geração, "Puf, o fantasminha" da Maria Clara Machado, se não me engano.

Tudo de importante que passava pelo Municipal de São Paulo eu ia assistir. Assisti Shakespeare com o Old Vic. No elenco Vivien Leigh e Lawrence, Baron Olivier.

Na década de 60 eu ia muito a Paris. Meu pai e minha mãe gostavam de passar um mês indo ao teatro e várias vezes fui com eles. Assisti de tudo, dos clássicos gregos a Moliére, Feideau e muito teatro ligeiro. Tudo que montavam na Comédie Française nós assistimos.

Em 1969 eu fui pela primeira vez para Nova York e lá eu tive a sorte de assistir inúmeros musicais famosos na Broadway. Assisti Hair, Man of la Mancha, e outros mais. E fiquei viciado.
Nas várias vezes que viajei a Nova York, antes de mudar para os EEUU e de morar quatro anos em Manhattan, assisti Chicago (a primeira montagem), Jesus Christ Superstar, várias remontagens de musicais de Cole Porter, tudo enfim o que passou de bom.

Me casei pela primeira vez em 1970 e assisti Hair na montagem francesa durante a lua-de-mel.

No Brasil eu assistia tudo o que era encenado. Chegava ao capricho de viajar ao Rio para assistir a Fernando Montenegro, que na época não saia de lá. Suas peças eram sempre no Teatro do Copacabana Palace.
No Rio assisti a Opéra do Malandro, as primeiras peças do Asdrúbal trouxe o trombone, a montagem carioca do Beijo da Mulher Aranha.
Desde menino eu ia ao Teatro Maria Della Costa em São Paulo e assisti Paulo Autran nas melhores apresentações.
Vi a Bibi de Elisa Doolitle, de Dulcinéia del Toboso, como heroína na Navalha na Carne.
Assiti várias montagens das peças do Nelson Rodrigues, algumas com minha sobrinha Patrícia no elenco. Na primeira ela aparecia nua. Meu irmão convidou meus pais e a mim para a estréia e ficou com medo de dizer que ela ia estar nua. E papai e mamãe estavam prontos para assistir a neta no palco. Na véspera eu contei pro papai do que se tratava e ele ficou indignado e não foi. Nunca perdoou meu irmão por não ter contado e me agradeceu até morrer por eu ter evitado que ele sofresse o choque da descoberta. Ele me disse que tinha medo de ter tido um enfarte ou de ter feito um freje (como ele dizia). Eu fui e gostei muito da peça. A Patrícia tem muito talento. Pena que, como muitos brasileiros, nunca desenvolveu direito esse dom.

Eu mesmo fiz o curso de teatro da Christina Mutarelli (que por sinal era muito parecida com minha mulher, a Clarissa, parecida a ponto de serem confundidas).
Estreiei nos palcos no SESC Pompéia, apresentando um trecho do Toda Nudez do Nelson Rodriques. E contracenava com a noiva do irmão da Christina, Adriana. Mas o mundo é muito pequeno.
Eu me inscrevi no curso sem nenhuma informação, tinha lido alguma coisa no jornal apenas. Chegando lá eu encontrei a Adriana que era terapeuta da minha filha Calu, na época adolescente. E não é que eu contracenei com ela? Antes de decidirmos nós pensamos muito nos problemas de ética, nos problemas que traria para a Calu que ia me assistir, etc. A Calu estava aproveitando muito a terapia e nós não queríamos atrapalhar. Afinal, depois de muita conversa, começamos a ensaiar.
E, um belo dia, eu entrei no palco ao som de "Fuimos", um tango cantado por uma grande amiga minha argentina, outra Adriana, a Varella. Depois da peça a Calu me contou que ela tinha achado muito estranho. Que cada vez que eu falava bravo com a terapeuta, ela sentia como se eu estivesse brigando com ela Calu. Mas até hoje ela se lembra da peça e de como a terapia tinha sido importante para ela. Por sorte no fim as duas coisas não conflitaram. Sorte.

Com o meu segundo casamento o meu amor pelo teatro se transformou em paixão desvairada. A Clarissa além de ser mais culta do que eu e ter gostos iguais aos meus, é muito metódica e acompanha tudo o que de bom acontece não só no teatro como na literatura, no cinema e na televisão. Ela é a pessoa mais informada que eu conheço.Com ela comecei a assistir ao bom teatro inglês nas nossas várias idas a Londres. Além disso lá nós assistimos as montagens de vários musicais famosos com os elencos originais, como o Phantom of the Opera. Em Londres nós também assistimos a montagem do Les Miserables. Muito melhores as duas do que as montagens americanas da Broadway, que também assistimos. Os ingleses não fazem tanta questão daquela beleza perfeita dos artistas da Broadway. Perfeição só nas vozes e nas performances.
Ir ao teatro é até hoje uma coisa que me entusiasma. É minha paixão, de verdade.

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