Eu sempre tive um lado muito carnavalesco.Gosto de me fantasiar, tenho samba no pé e posso passar a noite inteira sambando sem parar.
Me lembro de um carnaval que eu passei no Grande Hotel de Campos do Jordão. O baile era na boite, aonde eu não tinha idade para entrar (1962). Mas Campos naquele tempo era muito pequena. O juiz de menores era conhecido dos meus pais e eu compareci a todos os bailes.
Me fantasiei de Al Johnson, pintando a cara com rolha queimada. Eu e um amigo meu, o Luiz Alberto Whately.
Certa vez em Lindoia, eu comprei uma sandália de dedo para pular carnaval. Na época as sandálias eram japonesas e tinham a ponta arredondada como as Havaianas de hoje em dia. Mas a que eu comprei era feita no Brasil e tinha um bico no lugar aonde ficava o dedão. Passei o dia aborrecido com o tal bico. Um pouco antes do baile eu peguei uma gilete e comecei a arredondar a sandália. Pra que. Cortei um naco do meu dedo indicador da mão esquerda, sangrei pra burro e acabei pulando carnaval com um pé de sandália com ponta e o outro sem e com o dedo latejando. Mas pulei a noite inteira.
Passei vários carnavais em Ribeirão Preto, na Recreativa. As primeiras vezes com minhas primas e meus amigos. A gente passava as férias na Fazenda Bocaina em Serra Azul com os Bueno (Márcio, Marrise, Marielba, Da. Elba e "seu" Marcito) e ia de kombi via Serrana para os bailes da Recra. Naquela época os bailes eram no ginásio. A gente entrava e sentia aquele cheiro forte de lança-perfume Rodouro misturado com o cheiro de serpentina e confeti e já começava a pular.
Voltei a passar o Carnaval em Ribeirão Preto quando fiquei noivo e me casei com a Margarida. Ai os bailes já eram na sede nova da Recreativa. E eu já quase não pulava no salão, sambando em cima da mesa a noite inteira.
Passei carnal em Bento Quirino, na Usina Santa Clara, no Paulistano, no Casa Grande Hotel do Guarujá, na Usina Tamoio, na Fazenda Guatapará e numa série imensa de lugares.
A constante era a minha animação, com alcoól ou sem, que me fazia sambar até o Sol raiar.
Em 1980 eu me separei da minha primeira mulher. O nosso divórcio, em 82, foi assinado à tarde na sexta-feira antes do carnaval em São Paulo. Às 10 da noite eu já estava no baile do Morro da Urca (Rio) sambando em cima da mesa com uma amiga, a Denise Neal. Pulei em todos os bailes do Rio: Gala Gay, Golden Room, o baile do Ricardo Amaral e o da Regine. Assisti os desfiles de Escolas de Samba, e bebendo todas. Quando chegou o dia da famosa feijoada do Ricardo Amaral eu não conseguia mais abrir os olhos de tão inchados. Tive que passar o dia na cama com compressas nos olhos. Mas a noite eu consegui assistir o desfile das Campeãs no Sambódromo.
Meu próximo ataque carnavalesco foi em 2004, quando eu desfilei na Vai-Vai de São Paulo, na ala que homenagiava as artes. Teve um defeito só: o desfile foi muito curto. Eu tinha muito samba armazenado depois de viver nos Estados Unidos por 10 anos.
Mas o gostoso mesmo era o carnaval de clubes em São Paulo. Todo mundo conhecido, todo mundo sabendo as letras das marchinhas de carnaval.
Quando eu era criança tinha uma revista que saia com as letras das marchinhas do ano. Eu comprava e quando chegava o carnaval eu já sabia as letras de cor.
Papai era um grande conhecedor de letras das marchinhas. Ele era o famoso cantor de banheiro.
Ao contrário de mim, que sempre acordei de mal humor, meu pai era um profundo otimista. Fosse qual fosse a crise que ele pudesse estar atravessando, ele acordava cantando e assobiando. E as músicas favoritas eram as velhas marchinhas de carnaval.
Muitas dessas marchinhas não poderiam ser cantadas hoje em dia, como "O teu cabelo não nega...", mas que fazem muita falta no carnaval, isso fazem.