12/12/2009

PAPAI


Meu pai, de quem eu levo o nome, morreu em setembro de 2005.

Eu trabalhei com ele desde 1963.

Além de morarmos na mesma casa até setembro de 1970, nos víamos diariamente até 1994, quando mudei para os Estados Unidos fugindo da violência crescente em São Paulo.

Quando eu me casei pela primeira vez morei apenas 10 meses longe dele. Em janeiro de 1971 me mudei para uma casa nos fundos da dele, na Alameda Gabriel Monteiro da Silva, 487, aonde morei até 1985.

Em 1994, ano que me mudei para Miami, eu tinha um filho já estudando nos EUA, minha filha se formou na Chapel School e estava indo estudar em Miami e o meu caçula tinha 10 anos, uma idade que parecia que ia ser fácil a adaptação em um país novo.

Eu nunca sai de viagem em toda a minha vida sem primeiro ligar para o papai dizendo para onde eu ia e aonde ia ficar e dando os telefones de onde ele poderia me encontrar.
E, chegando ao destino, eu telefonava para ele antes de qualquer coisa, confirmando os telefones e dando o número do quarto aonde eu ia ficar.

Nos falávamos quase todo dia pelo telefone mesmo morando em Miami. Eu vinha uma vez por mes a São Paulo até 1999.

Tivemos um período muito difícil a partir de 1999, quando me mudei para Nova York, e fiquei até 2003 sem voltar para o Brasil.

Tive a sorte de voltar a conviver com meu pai de 2003 a 2005. Nesse período eu ia até a casa dos meus pais todos os dias e ficava conversando com o papai por horas. Falando dos negócios, dos problemas (de saúde e financeiros) e do passado.

Pusemos todas as conversas em dia e conversamos sobre todos os mal-entendidos de nossa vida passada.

Eu estava na ambulância que levou papai para o Hospital Sírio-Libanês aonde ele veio a morrer logo após dar entrada. Eu assisti seus gemidos na ambulância quando ele teve um enfarte durante o transporte para o hospital.

Eu assisti as suas mortes e as 8 ressucitações no hospital e vi ele dar o seu último suspiro.

Papai e eu tínhamos uma ligação pessoal e profissional muito grande. Tínhamos muitos desentendimentos profissionais, afinal éramos de gerações diferentes, mas nunca levamos esses desentendimentos para casa.

Brigamos um número muito pequeno de vezes. Ficávamos sentidos um com o outro mas nunca ficamos sem falar.

Papai era muito solidário comigo. Como eu também era com ele. Não tínhamos inimigos pessoais. O inimigo de um era automaticamente inimigo do outro. Nas grandes batalhas da vida cerrámos fileiras e lutávamos juntos, mesmo que muitas vezes discordássemos do caminho a ser seguido.

Depois que ele morreu eu pensei que a falta que eu sentia dele teria que ir diminuindo e que eu iria me acostumar e sentir menos saudade dele com o passar do tempo.

Não é verdade.

Com o passar dos anos (4 anos, inacreditável) a falta só foi aumentando. Cada ano trás novos problemas e novas crises, bem como novas alegrias e cada vez que alguma dessa coisas acontece, a saudade e a falta aumentam.

Cada ano que passa eu tenho mais ocasiões para sentir a falta dele. Para pensar em como seria bom poder trocar idéias com ele. Poder me queixar, reclamar ou rir com ele das ironias da vida, das desgraças dos inimigos (tão pouco importantes com o passar dos anos) e nos alegrar juntos com as coisas boas da vida.

Eu sinto muito que papai não conheceu a Flora, minha neta mais moça. Eu acredito que ele iria achar muita graça nela e rir muito do humor que ela já possue aos 4 anos.

Papai, ao que saudade que eu estou sentindo. Que falta você está me fazendo.

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