Ouvindo a NPR outro dia levei um choque.
Era uma entrevista com o Walter Mosley, African-American escritor de mistério, com quem aprendi a entender o que os negros americanos falam. Como estrangeiro eu sempre achava que eu estava errado e não tinha entendido o que eles falavam. O Mosley, quando escreve os diálogos em seus livros, usa a forma coloquial da fala dos negros americanos e fica claro que eles cometem uma série de "erros" quando falam. Chamam esse inglês coloquial African-American de EBONICS. Com essa "revelação, nunca mais tive problemas de entender a maioria dos que eles falam.
Mas voltando à entrevista e ao choque.
O Mosley explicava o que tinha mudado entre o personagem que ele havia criado no século 20 e aquele que havia criado para o século 21. Como a incerteza econômica e a pobreza tinha mudado o seu enfoque. No século 20, segundo ele, os negros eram a camada esquecida da sociedade, que não tinha esperança e oportunidade e que não consegui subir na escala social. Com a crise do século 21, toda a classe média baixa e média, em suma todos os assalariados sofrem as mesmas incertezas e passam pelas mesmas privações, mudando o seu enfoque da sociedade refletida em seus livros.
Mas o que me assustou mesmo foi o uso de século 20 como alguma coisa do passado, uma coisa distante. Como? Distante?
Pois é. Já fazem 12 anos que o século acabou. O mundo mudou muito nesses anos.
E fiquei lembrando de outras mudanças que tinham ocorrido e me deixado com a mesma sensação.
A primeira vez que viajei para a Europa foi em 1960. A guerra havia termina a 15 anos e parecia, para mim pelo menos, como coisa de um passado muito remoto. Para os europeus da geração que havia sofrido com a guerra, ainda era uma coisa recente e sempre relembrada e contada. Para mim, passado distante.
As únicas coisas que me colocaram em contacto com essa realidade "distante" foi uma visita ao lugar aonde haviam prendido e assassinado Mussolini e a Clara Petacci e os meninos de rua de Madrid, que ainda catavam tocos de cigarros na rua, os quais eles desmanchavam e enrolavam o fumo assim conseguido em novos cigarros, que eles vendiam em tabuleiros pela rua, por unidade ou maços amarrados com uma cordinha. Fiquei muito impressionado com esse comercio madrilenho.
