3/23/2008

Memórias 6 - Reveillon


Na minha infância, passávamos o Reveillon na casa da vovó Belita. Ficávamos conversando na sala de estar com a televisão passando a corrida de São Silvestre, que na época terminava a meia-noite em ponto (ou quase). O Jorge, filho da tia Cy era quem mais gostava de assistir à corrida, mas vovô Ataliba, papai, o Juca e eu mesmo, ficávamos prestando atenção de longe. Nosso sonho era ver um brasileiro ganhar a corrida, o que só veio a acontecer muitos anos mais tarde. Os portugueses porém se não eram os vitoriosos, garantiam sempre um bom lugar, o que nos servia de consolo. Terminada a corrida íamos para a Sala de Jantar para tomar uma taça de champanhe e comer 3 bagos de uva para garantir um ano próspero.

Durante a noite toda era um entra e sai de primos e tios que iam para as festas nos clubes ou casas de amigos, e passavam antes por lá para dar um abraço nos avós e demais parentes. Eu me lembro de como ficava ansioso para ficar logo adulto para poder, eu também, frequentar essas festas. Anos mais tarde frequentei os bailes do Jockey Club e pulei carnaval até o nascer do novo ano, quando saíamos a procura de um café-da-manhã. Mas o entusiasmo durou pouco e logo escolhi passar a meia-noite em casa com a família.

Creio que foi num dos primeiros anos que passei o Reveillon na casa da vovó Belita que fiquei para dormir. Fizeram minha cama num quarto que dava para a avenida Angélica, ao lado do quarto da tia Candóca. Não lembro se o Juca também ficou para dormir ou não. Me lembro que foi muito difícil conciliar o sono. Quando estava quase dormindo, passava o bonde na avenida fazendo um estardalhaço enorme e me acordava. No meio da noite acordei com um berreiro e gente chorando. Fiquei assustadíssimo mas me acalmaram dizendo que era no vizinho, que no dia seguinte iriam descobrir e me contariam. O que aconteceu, depois me contaram é que uma das filhas da família que morava na esquina com a rua Pará, os Estefano, havia saido com o noivo de carro após uma festa e teriam dado um trombada na qual os dois haviam falecido. A choradeira e os berros que eu ouvi durante a noite foram do momento em que a família recebeu a notícia. Creio que a lembrança dessa noite é talvez a principal razão para que eu fique em casa nas passagens de ano.

São Paulo na décade de 50 era uma cidade de cerca de 3 milhões de habitantes. A vida era mais tranquila e os vizinhos se conheciam. Me lembro que nós conhecíamos quase todos os vizinhos da casa da Angélica.

Na casa da direita vivia a Da. Nenê Castro Prado, que era amiga da vovó Belita, com a filha Zuleika, companheira de jogo das tias. Da. Nenê era viúva de uma senhor que diziam ter feito uma lei que lhe dava creio que um ou dois centavos por saco de café exportado por Santos, o que lhe proporcionou uma fortuna imensa.

Na casa em frente morava Da. Nenê Moura, que visitava as tias sempre para tomar chá e divertir a todos com suas histórias meio incríveis. Diziam que essa Da. Nenê tinha um parafuso a menos.

Na casa à esquerda morava Da. Aída, mulher do dono da fábrica de saltos de sapato Amazonas. Uma senhora mais simples mais muito simpática que ouvi contar que roia as unhas do pé. Sem dúvida devia ser contorcionista para poder fazer isso.

Na esquina moravam os Estefano.

Do outro lado dos Estefano, na rua Pará moravam os Greco, a Raquelita e o "seu" Italo, cuja filha Eugenia era minha colega no Ofélia Fonseca.

E na casa seguinte o Prof. Benedito Montenegro. O Prof. Montenegro tinha uma filha ou neta que era limítrofe. Num certo ano, a matricularam no Ofélia na minha classe. Durou pouco. Não sei se foi por causa da crueldade das outras crianças ou se foi devido à impossibilidade de adaptação, mas ela não chegou a ficar um semestre na nossa classe.

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