Fiz três Jardins de Infância no Ofélia Fonseca. O primeiro foi quando o meu irmão Juca começou a cursar o Ofélia. Mas não valeu pois eu só ia quando queria e ficava um pouco e voltava para casa. A segunda vez foi pra valer. Mas, como eu não tinha ainda idade para ir para o Pré-Primário, tive que voltar para a classe da Da. Dorinha no ano seguinte. Mas valeu a pena pois fiz muitos bons amigos nessa terceira vez.
Foi com o Ofélia que eu estreei no teatro vestido de ratinho com rabo e tudo no Teatro Odeon da rua da Consolação, pegado a onde hoje é o Conjunto Zarvos, na esquina da avenida São Luiz.
A Da. Dorinha era irmã da diretora, Da. Lydia, que era encarregada da disciplina. Enquanto Da. Dorinha era doce, calma e querida por todos os alunos que passaram por sua classe de aulas, Da. Lydia era o seu oposto. Expressão dura, pele feia, era temida por todos e por todos evitada.
Havia uma outra diretora, a Da. Josefina, de quem todos gostavam também. Era uma senhora alta, bonita e com uma bonita voz.
A Da. Dorinha era recém-casada e durante o ano em que estivemos em sua classe, ou no seguinte, não me lembro bem, ficou grávida e teve um nenê, o que causou algum rebuliço na nossa turma.
Foram meus colegas no Ofélia a partir do Jardim (nº 3) entre outros, a Eugenia Greco, a Helô Cavalcanti, a Heleninha Gordo, a Thereza Corbet, a Lucila (não me lembro do sobrenome), a Maria Pia Martinelli, a Sandra Foz, a Irene e a Ilze Di Felipe, a Marjorie e várias outras. Entre os meninos me lembro do Huguinho Amaral Gama, o Amériquinho Marques da Costa, o Frederiquinho Brito, o Zé Humberto. o Silvio Avanzi, o Luizito Castilho Freire, o Jorge Longo entre outros.
Com essa mesma turma, fiz ainda o Pré- Primário da Da. Judith, aonde aprendemos a ler, o primeiro e o segundo ano Primário. Fiquei no Ofélia até 1956. Como havia mudado para a rua Atlântica, no Jardim América nesse ano, meus pais resolveram me colocar no Externato Nsa. Sra. de Loudes na rua Bela Cintra.
No último ano no Ofélia, numa aula de trabalhos manuais tive um impulso incontrolável e cortei uma das tracinhas da Helô Cavalcanti. Me lembro até hoje que ela fez um versinho no meu diário de fim de ano em falava "...se um dia minha trança cortaste em outra ocasiões me alegraste..."
Eu me dava melhor com as meninas que, no recreio, eram muito mais ativas. Enquanto os meninos ficavam jogando bafo e bolinha de gude, as meninas pulavam corda e brincavam de pega-pega. Jogar bafo com figurinhas era uma das coisas mais paradas que eu conheço, além de que, por ter mãos gordinhas, eu acabava perdendo todas as minhas figurinhas. Com as bolinhas de gude eu não era muito melhor e acabava sempre ralando os meus dedos no cimentado do chão. E as duas atividades eram paradas, lentas e, para mim muito chatas. Já pular corda era outra coisa. Era movimentado e me ajudava a por pra fora toda a energia aculmulada na sala de aula.
Me lembro que a grande molecagem que nós meninos fazíamos era beber água de uma torneira que tinha no pátio. Na época, a água de São Paulo não era tão tratada como é hoje em dia. Tinha-se muito medo de tifo. É era terminante proibido beber água da torneira. Proibiu, dá vontade de fazer e nós todos tomávamos a água proibida, que por proibida nos parecia deliciosa.
Foi no recreio que eu assisti minha primeira briga. O Zé Humberto e outro menino se atracaram e rolaram no chão trocando chutes e mordidas. Nós depois muito impressionados comentávamos como eles tinham brigado como dois moleques.
No recreio a gente tomava guaraná caçula ou coca cola, que estava surgindo no Brasil e que ninguém gostava muito. Não me lembro se a gente levava de casa ou comprava de algum dos vendedores que ficavam na porta da escola. De qualquer forma, na saída a gente sempre comprava alguma coisa no pipoqueiro, ou no carrinho do quebra-queixo cor-de-rosa. Tinha o carrinho do Sorvex Kibon e de vez em quando passava uma carrocinha beije claro com uns detalhes vermelhos, puxada por um cavalo, que vendia sorvetes também. O normal era me darem 1 cruzeiro para gastar na escola. E era bastante dinheiro. De vez em quando eu levava 2 e dava pra fazer festa.
Foi na época que eu cursava o Ofélia que a Refinações de Milho Brasil começou a lançar produtos no Brasil. Me lembro que eles distribuiam nas classes cadernos de atividades para fazer "propaganda" dos produtos. Foram os primeiros desse cadernos que eu vi na vida.
Uma vez a Da. Carmem Yanes Nunes Prudente do Hospital do Câncer foi na nossa classe convidar as crianças a participar so Clube do Siri. Era uma forma de arrecadar fundos para a ala infantil do Hospital do Câncer, sempre tão carente.
Me lembro de uma festa junina na rua Itaquera, na casa das Di Felipe. A classe toda foi. Eu me lembro bem da Eugenia que foi com um vestido muito bonito de caipira. Não sei se eu e papai fomos buscá-la na rua Pará onde ela morava ou se só fomos levar. A Eugenia estava animadíssima, com só ela conseguia ficar e às tantas começamos a pular fogueira. Na vez da Eugenia ela torceu o pé e fomos, papai e eu levá-le de carro para casa. Ficou marcado. Nunca mais esqueci da Eugenia e quando, anos depois nos encontramos na casa da Yolandinha, minha prima que frequentava o ginásio do Ofélia com ela nos aproximamos e em seguida namoramos por vários anos. O Ofélia na época só tinha Ginásio feminino.
Uma vez fui buscar a Eugenia na porta do Ofélia de carro e a megera da Da. Lydia logo veio brigar porque os namorados não podiam pegar as meninas na porta. Eu não tive dúvida entrei na escola, fui até a Diretoria tomar satisfações, pois eu estava "só visitando a escola em que havia estudado e por acaso tinha encontrado uma ex-colega na porta, com quem eu estava apenas comprimentado" quando a Da. Lydia nos encontrou. Peito eu tinha. Não me lembro se puseram a Eugenia de castigo mas creio que não.
Voltando ao Primário. Me lembro de alguns fatos apenas. Por exemplo uma festa de aniversário que o Ameriquinho deu na casa em que morava no Pacaembuzinho. Era uma casa moderna, com pastilhas na fachada e tinha uma campinho de futebol nos fundos. Achei muito estranha a casa que me pareceu por dentro meio parecida com a minha idéia de um navio transatlântico.
Lembro também de outra festa na casa do Hugo Amaral Gama, na Brigadeiro Luiz Antônio perto da Brasil. Eu considerava o Huguinho o meu melhor amigo. Mas na festa ele estava meio arredio, cheio de segredinhos com os outros colegas. Ai mesmo é que eu comecei a prestar atenção no movimento. E fiquei revoltadíssimo com o Huguinho que tinha uma coleção completa do Pato Donald guardada em baixo da cama que mostrava para os outros colegas, escondido de mim. Como sempre quando indignado, me excedi e dei uns encontrões no aniversariante o que levou à minha primeira expulsão de uma festa, tendo meus pais sido chamados para me levar para casa.
O Hugo anos depois se tornou fotógrafo. Me lembro que o pai dele morreu de câncer e que ele fez um série de fotografias do pai durante a doença, definhando e que treminou com uma foto do pai morto. Tétrico. Fiquei sabendo por que ele fez uma exposição do trabalho e saiu nos jornais. Pouco tempo depois ele morreu de enfarto, ainda muito moço.
Estive algumas vezes na casa do Frederiquinho Brito. O pai dele era dono da fábrica Peixe que fazia goiabadas, maça de tomate e outros produtos alimentício e da Duchen que fabricava biscoitos. Anos mais tarde fiquei sabendo que meu avô, que era Presidente do Banco do Commercio e Industria de São Paulo, foi quem apresentou o negócio da Duchen para eles e financiou pelo banco. O Frederico tinha dois irmãos mais velhos e os três eram escoteiros. Eu adorava ver os meninos com a farda de escoteiro. Um deles era escoteiro do mar se não me engano. O Luciano, um dos irmãos trabalhou comigo na década de 70 no Banco Português do Brasil.
O Américo Marques da Costa eu reencontrei em 1970. Em julho deste ano fiz a minha despedida de solteiro numa caçada às margens do Rio Araguaia. Fui com os meus grandes amigos na época, o Prof. João Rossi com o filho Wagner e o genro Roberto. Como sempre eu exagerei um pouquinho as dimensões do acampamento e parecia um assentamento. Levei até um cozinheiro que havia trabalhado no Fazano. Mas isso já é outra história.
Estava eu deitado numa rede nessa praia do Araguaia quando ouço o tum-tum de um barco se aproximando. Eu virei a cabeça para trás, vendo o mundo de ponta-cabeça quando o barco parou em "nossa" praia e dentro dela saiu .... o Amériquinho. Louquíssimo, viajando. Ele estava tomando todas em São Paulo e deu uma vontade de viajar e ele veio, com a roupa do corpo e, por coincidência nos achou no Araguaia. Ele estava tão louco que duvido que se lembre do encontro.
As meninas eu encontrei muito menos, lógico que com a excessão da Eugenia. Em 1962 fui para Buenos Aires pelo Federico C com a Maria Pia, a mãe e a irmã menor Silvia. A Heleninha Gordo eu encontrei numa festa que ela deu na casa de uma tia, a Carolina, e que eu fui como penetra. Encontrei as duas no velório do pai da Heleninha na Santa Casa anos mais tarde.
A Tereza Corbet fazia um programa jornalístico na televisão e tinha filhos no Chapel School, aonde meus três filhos estudaram, e nos encontramos várias vezes.
Tenho saudade dos anos de Ofélia. No Nsa. Sra. de Lourdes começou o meu calvário escolar que só terminou em 1963, quando comecei a trabalhar com 15 anos.